Contos Pai de Kabul

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Contos Pai de Kabul

Cheiro da terra, cheiro de Deus

 

Neste mundo entre tantas lágrimas, dor, há sempre lugar para uma conversa sossegada, sem compromisso, como um sopro de tempo, e com ele toda a nossa sabedoria absorvida de alguma maneira pelos nossos descendentes. Evitamos ou não com os nossos filhos a dor, o ódio, o rancor, essas palavras estranhas que os sociólogos chamam de memória social que nos fere a alma e nos arrasta para uma onda de ódio e morte.

Cristo desde sempre, sim, esse é o seu nome, cresceu meio a tantas histórias dos Maias, povo que ergueu no Sul do México, magníficas cidades. Pelas armas dos colonizadores espanhóis, tornou-se pobre, triste,  depois pelos poderosos do país que saquearam a energia da natureza, incluindo o seu povo, mesmo orgulhoso da sua origem maia, pouco restou da civilização dos seus ancestrais, inclusive o orgulho, quando pouco a pouco aqueles que estão no topo da pirâmide apagaram através do assassinato de corpos e mentes essa história que começou bem antes dos espanhóis saquearem Chiapas. Sim, Chiapas, tão rica no seu passado e na sua natureza e um povo tão pobre, resultado dos erros que cometemos e que ainda persistem.

O homem de nome tão conhecido, ainda faz jus ao seu nome, sim, Cristo é um líder, pai, marido, irmão, filho, irmão de todos em San Cristóbal de las Casas. Quando o capitão Marco líder dos Zapatistas liderou uma revanche histórica sobre os poderosos do seu país, Cristo ainda era um jovem começando a entender o que se passava ao seu redor, entendendo que todos os meninos e meninas da sua idade, mulheres, crianças, idosos eram seus iguais.

– Não vou sair daqui como os meus amigos fizeram, meus tios e primos! Há algo que podemos fazer por essa terra! Temos que cuidar da nossa mãe, ela é a nossa mãe, mãe comum…

E assim o tempo passou e Cristo se tornou como os seus ancestrais, trabalhador das terras daqueles que um dia chegaram e disseram que por terem pólvora, dinheiro e as leis poderiam se apossar e usufruir da mãe terra como quisessem. Cristo tornou-se pai de Frida, homenagem que fez a uma personagem mexicana que usou a sua pintura como um instrumento de luta pela igualdade de direitos e o fim da exploração dos poderosos sobre aqueles que eram os verdadeiros donos da propriedade.

Já contando com dez anos Frida acompanhava e participava de todas as discussões políticas de Cristo e dos membros do sindicato campesino. Cristo se assustava como Frida se colocava de forma tão madura, ao mesmo tempo doce, seus pontos de vista e como os apresentava era doce para solucionar problemas tão graves que os Zapatistas, como eram chamados os integrantes do movimento que revindicava melhoria nas condições de vida dos trabalhadores da região de Chiapas estava enfrentando. No sindicato campesino que Cristo e Frida faziam parte curiosamente há a participação de todos sem distinção, desde que consigam compreender a realidade de seus iguais, tem voz e voto.

As crianças daquele povoado eram diferentes, trabalhavam, participavam ativamente da vida familiar e sindical junto com seus pais e já se posicionavam dizendo que em Chiapas estava surgindo “o mundo de Deus”. Chiapas e San Cristóbal eram como um pedaço do paraíso mesmo com a devastação sofrida: rios com água azul, florestas de coníferas e seu relevo acidentado dava o tom que “aqui nosso senhor passou e deixou sua marca”.

Cristo, também era professor rural, sim, formou-se em Filosofia por um acidente… mas resolveu se juntar a sua gente e ao trabalho dos seus ancestrais, nas sobras de tempo lecionava na escola do sindicato e numa aldeia do povo chol, descendentes dos incas. Frida era filha e aluna de Cristo e por ter a sua presença além de crianças tão especiais em sua curiosidade, sensibilidade e coragem o jovem pai e professor se sentia na obrigação de aprender e um dia Cristo tomou uma decisão:

– A partir de hoje vou abolir a mesa do professor e as cadeiras, sala de aula e vamos a Pacha Mama, sentar ao chão, ficar na mesma altura, tudo mudou por aqui, não só o nosso povo resolveu reagir a opressão, mas a nova geração se levanta em espírito, opinião, sabedoria e amor!

 

E assim correu a aula, Cristo achando que Frida e os colegas se surpreenderiam com a atitude do professor, foi um silêncio absoluto. As crianças foram sentando, se acomodando, outras deitaram, riram e brincavam umas com as outras, correu um clima de total integração entre elas. Cristo iniciou uma conversa sobre a história da ocupação daquele território pelos povos originários da região, seus ancestrais, comparando com o momento presente, onde a natureza tinha se modificado pelas mãos dos colonizadores e que obrigaram os povos originários a destruir o que os ancestrais tanto veneravam: a terra, água, o ar, as espécies animas e vegetais pela necessidade material. Frida aproveitando a posição do pai Cristo que estava na mesma posição e altura sentiu-se à vontade para comentar a passagem do também professor…

 

– Caríssimo professor nossas coníferas, águas estão indo embora, o ar puro! Nós nos sujeitamos, mas tudo isso pai! É o começo da outra parte da nossa história, momento em que sentimos medo do desconhecido, não sabíamos como lhe dar com o monstro do desconhecido! Quando chegamos à conclusão que ele era só uma ilusão, criado para que não pudéssemos sair, acordamos como a Bela Adormecida de um sono profundo, quando vimos que as coisas estavam complicadas resolvemos dar um jeito em tudo!

E Cristo interessado e impressionado com a fala da filha e aluna pergunta, mas com um tom de um adulto que naturalmente não se sujeitaria a perspicácia de uma criança:

 

– E agora senhorita, o que fazer?

Frida com muita tranquilidade e com uma impressionante humildade responde a pergunta do professor:

Acredito que seja simples, é só partirmos do ponto que devemos pensar como nossos filhos se sentiriam, sua dor, medo, desesperança, basta se colocar no lugar do outro, não precisamos ir tão longe Cristo! Basta nos colocar no lugar dos nossos filhos e filhas, netos e netas, bisnetos e bisnetas… Pare, pense, eles ainda não existem mas se não fizermos nada, já sinto a suas dores e os seus choros! O meu, o seu e o deles!

 

Referência:

Esse é um trecho do conto que integra a coletânea “Pai de Kabul” de Renato Oliveira que discute a situação de pais que vivem em zonas de conflito.

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Sobre Radhazen

Educador, historiador e fotógrafo, me envolvi com o tema da paternidade e da primeira infância quando experienciei o preparo e a emoção do parto natural humanizado em 2012. Desde então, não deixei mais o tema, me propus a ler e participar das rodas de discussão mantendo-me informado sobre as mais novas descobertas desse lindo e mágico universo que não é só feminino, hoje, com a maior participação do progenitor masculino, também do pai. Por isso resolvi criar esse espaço de divulgação e compartilhamento de ideias para papais de primeira e outras viagens. Como bem sabemos, não existem muitos espaços destinados exclusivamente a nós homens, papais que muitas vezes nos mantemos distanciados de nossas companheiras e mesmo de nossos filhos por falta de informação e sensibilização para a fase mais importantes dos pequenos... que é a primeira idade, ou seja, os anos iniciais de formação física, emocional e espiritual de nossas filhas e filhos.

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