Força Insular

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Força Insular

Da poeira da violência ressurgiu tudo, melhor, mais claro, menos defeituoso ou turvo. Caminhávamos solitários, eu, Yoko, minha esposa, Naomi minha linda e doce filha e Hideki, nossa árvore soberba! Fiquei profundamente desapontado em não ter visto ou percebido nas raras vezes que estive presente a sua esperteza, inteligência e sensibilidade, quanto a Naomi… linda! Ainda mais linda com seus gadôs* que tanto nos encantavam, retratando a nossa ancestralidade e a minha vida de humilde pescador. Yoko… companheira generosa que aos poucos a bebida, a guerra foi nos distanciando, mas ela com a bravura que era típica de uma descendente daqueles que expulsaram os ocidentais de nossa ilha a séculos atrás, tentava a todo o custo passar por cima do orgulho e trazia sempre o sorriso, amor e doçura fazendo -me me recompor por alguns instantes.

Não dá para contar algo tão doce como saquê para sensibilizar aqueles que poderiam ouvir a minha breve história, mas o desfecho poderia ser belo como aquelas lindas folhas de cerejeira, das quais me lembro muito bem em uma das minhas passagens por Tóquio ainda na juventude. O mais interessante, talvez, é o caminhar de nossa família pela poeira estranha e pesada e um calor que tinha cheiro e uma umidade mais baixa do que o normal.
– Aonde está o sol, o céu azul, aquele som das aves que como nós vivem do mar? Os nossos templos e a casa da bisavó? Perguntou Hideki. Meu filho de doze anos esteve na órbita dos generais, quem não esteve ou estaria em época tão dura? Se tudo isso não terminasse talvez se tornasse um pássaro da morte, um tubarão ou felino feroz.
Talvez não tenha sido um exemplo de pai, mas a morte nunca esteve na ponta da língua. Com a menina e meu pequeno preferia exaltar as aves e os peixes, esses que eram divinos na sua benevolência para nos servir de alimento. Acredito que eu, Yoko e as crianças tenhamos chegado a conclusão que era hora de unir as lembranças, lembrar dos chás, banhos em família, da mesa farta, do pôr do sol que víamos do engawa**.
Depois que tudo se acabou, a terra ficou estéril, o ar pesado e cinzento, o calor com cheiro; sentados em círculos de olhos fechados, mãos dadas, sentimos o frescor dos nossos corpos, a textura das nossas peles quando Naomi ao abrir os olhos vê inopinadamente ao seu lado um grou***, essa linda ave que cresceu em tamanho e beleza sobre os nossos corpos.
Hideki olhou para mim e disse: – Lembra, papai? Nossos sonhos são projeção e concretização do real. O meu filho cresceu, ficou maior do que eu com o brilho de uma bela cerejeira. Com suas mãos cálidas e perfumadas, Hideki nos colocou sobre a enorme ave. Num impulso deixamos para trás a ilha de Nagazaki. O grou nossa ave sagrada, a ave dos hermitões, tão bela nos conduziu para a projeção do que pensamos, sonhamos e queremos.

gadôs* Pintura tradicional japonesa

engawa** Engawa (縁側 ou 掾側), no Japão, é a denominação dada à faixa tipicamente pavimentada em madeira que ressalta da face das paredes constituídas por portas corrediças (shōji), cujo espaço está sob o beiral do telhado da casa tradicional japonesa. Equivale ao espaço designado no Ocidente de “varanda“. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Engawa

grou*** O grou é um dos símbolos mais tradicionais do Japão, considerado tesouro nacional. Os japoneses acreditam que o grou é uma ave sagrada que simboliza paz e vida longa. Elas também simbolizam o amor conjugal e a fidelidade, porque essas aves são monogâmicas, ou seja, depois que um casal de grous se une, só a morte os separa (…) a ave representa o canal entre o mundo dos vivos e dos mortos e por isso é comum ver a imagem do tsuru sendo colocada em caixões, com o objetivo de que a alma do morto seja levada para o céu em seu voo. Dar um origami de tsuru a um amigo, indica desejar sorte, felicidade e vida longa a essa pessoa. Fonte: http://www.japaoemfoco.com/o-simbolismo-do-grou-no-japao/

 

Fonte: Esse é um trecho do conto que integra a coletânea “Pai de Kabul” de Renato Oliveira que discute a relação de pai e filhos em zonas de conflito.

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Sobre Radhazen

Educador, historiador e fotógrafo, me envolvi com o tema da paternidade e da primeira infância quando experienciei o preparo e a emoção do parto natural humanizado em 2012. Desde então, não deixei mais o tema, me propus a ler e participar das rodas de discussão mantendo-me informado sobre as mais novas descobertas desse lindo e mágico universo que não é só feminino, hoje, com a maior participação do progenitor masculino, também do pai. Por isso resolvi criar esse espaço de divulgação e compartilhamento de ideias para papais de primeira e outras viagens. Como bem sabemos, não existem muitos espaços destinados exclusivamente a nós homens, papais que muitas vezes nos mantemos distanciados de nossas companheiras e mesmo de nossos filhos por falta de informação e sensibilização para a fase mais importantes dos pequenos... que é a primeira idade, ou seja, os anos iniciais de formação física, emocional e espiritual de nossas filhas e filhos.

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