Voo do cancão

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Voo do cancão

A pobreza abatia o corpo e a alma num lugar longícuo em terras brasilianas como tantas famílias de um sertão seco para dedéo, sem uma gotinha de água, senhor doutor para curar as moléstias e todo o tipo de mau que abatia o corpinho das pobres alminhas que chegavam a esse mundo e logo partiam, ou,  governo que chega com aquelas benfeitorias que dá dignidade, eu, Chiquinho, parti com a família para um tal lugar que diziam que as casas, pontes e até os sonhos eram feitos de ouro o próprio nome já fazia jus “Eldorado” num tal lugar de nome estranho Carajás… “Eldorado dos Carajás”.

Pois bem, saí com a esposa Judith com “th” no final e meus cinco filhotes, foi um sofrimento danado, aquela criançada no pau de arara, aqueles caminhões ruins que tem um acento para o povo sentar, que lembra aqueles cotocos que a ave bonita se apóia para descansar, não era o nosso caso, coisa dura que nóis tinha que segurar para não cair na estrada enquanto dormia! Viagem longa, para lá de muitas e muitas horas, com as roupa do corpo, sacolas com que nóis teve tempo de colocar como se fosse lembrança na cabeça e partir com aquela promessa que a coisa ia dá certo! Padre Cícero, Dom Elder Camara, Santo Expedito e a Nossa Senhora, pedi a todos eles que me acompanhasse assim como a minha amada e os filhotes… Mas eu ficava de olho em Pedro, eita moleque certeiro, tinha uma perspicácia de um gato do mato!

Sabe, essa coisa de muito verde era algo estranho para nóis! Um descampadão que o povo que passou por aqui atrás do tal ouro e os metal de alta preciosidade desmatou tudo! Sem dó de pai, mãe e fío! Coisa que Deus deve ter ficado de pêlo em pé! Logo nóis nos instalamo… Num fazendão sem fim, mas não deu certo, fui para o garimpo mais era uma sofridão… Até que toda essa história começa o tal povo que não tinha mais um palmo de terra que foi enxotado igual cão sarnento se juntou, organizou aí a luta começou, logo, me juntei a isso mais minha família.

Pedro ainda moleque por volta dos quinze anos se mostrou empolgado com aquela história, movimentação de alfabetização, história de política, organização do povo do acampamento e instrução de saúde e defesa dos nosso direitos, nunca vimo aquilo de onde saímo, aquele lugar sêco que falei lá trás, onde os homi da lei, política e da terra é que achavam que era nosso Senhor. Mas fiquei mei preocupado sabe! Pedro aquele menino rastero, esperto como um gato da caatinga foi ficando astuto tão astuto que começou assustar o povo de muita terra e os grande que mexiam com mineração esse coisa que tem utilidade mais que é um coisa ruim, motivo de morte, desavença de toda ordem!

Apesar do pouco estudo sempre criei meus fiote, assimo como Judith fez também com base em observar o ritmo das coisas, da caatinga, da chuva que vinha poca ou nada, mas vinha no tempo dela de Deus, por algum motivo era assim, tinha explicação de Deus dos homi, como os bicho procria, os mandacaru que nasce e os cactu e tem seu tempo de vida e nascimento, a terra rachada… tudo! A escola foi a natureza e as poca letra que nos permitiram ter além da fé em nosso Senhô! Mas fui ficando mais preocupado o mundão ia nos engolindo aos poucos, fui perdendo o controle de tudo, Pedro foi se envolvendo mais com essa coisa da política da terra para esse povão sem chão, como nós também que saímo do nosso chão rachado que era nosso mas deixou de ser porque a força dos homens nos engoliu grande!

Sabe, foi um tal de faísca, tiro, incêndio e muita violência que nunca tive as vista para vê… O povo grande esses político, polícia, juíz macumunado com os rico ia solapando tudo os chão que nóis ia se apossando para comer, trabalhar, criar nossos fío que já iam crescendo e no ódio da terra de orige somado com as injustiça, imagina no que deu! Pedro estava naquela confusão do povo que fechou a estrada para os rico, toda essa gente grande que pisa no povo como se fosse formiga, formiga que como nós é coisa nobre de Deus! Nosso fio estava naquilo foi uma das cenas mais tristes vi tudo de longe, porque nunca fui de violência, nunca aceitei esse mundo, sempre de olho na bondade da natureza que é o nosso Senhor, não é? Vi o meu fio Pedro, deixar esse mundo como um lindo pássaro da nossa terra o Cancão… Lindo na sua elegância e perfeição que o povo desse mundo nunca irá de alcançar.

 

Fonte: Esse é um trecho do conto que integra a coletânea “Pai de Kabul” de Renato Oliveira que discute a relação de pai e filhos em zonas de conflito

 

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Sobre Radhazen

Educador, historiador e fotógrafo, me envolvi com o tema da paternidade e da primeira infância quando experienciei o preparo e a emoção do parto natural humanizado em 2012. Desde então, não deixei mais o tema, me propus a ler e participar das rodas de discussão mantendo-me informado sobre as mais novas descobertas desse lindo e mágico universo que não é só feminino, hoje, com a maior participação do progenitor masculino, também do pai. Por isso resolvi criar esse espaço de divulgação e compartilhamento de ideias para papais de primeira e outras viagens. Como bem sabemos, não existem muitos espaços destinados exclusivamente a nós homens, papais que muitas vezes nos mantemos distanciados de nossas companheiras e mesmo de nossos filhos por falta de informação e sensibilização para a fase mais importantes dos pequenos... que é a primeira idade, ou seja, os anos iniciais de formação física, emocional e espiritual de nossas filhas e filhos.

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